O Palco do Samba, a história dos espaços dos desfiles de carnaval no Rio - CARNA BH

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Palco do Samba, a história dos espaços dos desfiles de carnaval no Rio

O Palco do Samba, a história dos espaços dos desfiles de carnaval no Rio
Marques de Sapucaí 



















Escolas de samba desfilam na Antônio Carlos e no Mangue até pouso na Sapucaí
Obra do metrô, nos anos 70, tira desfiles da Presidente Vargas, e agremiações peregrinam até ganharem o Sambódromo em 1984. Concentração chegou a ser feita em viaduto

Após se exibirem, em suas origens, na histórica Praça Onze e passarem por palcos como a tradicional Avenida Rio Branco, as escolas de samba do Rio de Janeiro viveram tempos áureos na Candelária e na Avenida Presidente Vargas, de 1963 a 1973. Nos dez anos seguintes, de 1974 a 1983, o desfile principal teve seus locais e percursos modificados diversas vezes, até ganhar um palco fixo, o Sambódromo, em 1984.

Nos anos 70, quando tudo indicava que as escolas de samba haviam encontrado o palco ideal para seus desfiles, entre a Candelária e o Campo de Santana, a construção do metrô carioca, que transformou a Presidente Vargas num grande canteiro de obras, impossibilitou a realização do concurso de 1974 na avenida, exigindo a mudança para um novo palco.

Após duas reviravoltas – já que, inicialmente, a Radial Oeste, no Maracanã, e pouco depois, a Avenida Beira-Mar, no Centro, chegaram a ser anunciadas oficialmente -, a Avenida Presidente Antônio Carlos, também no Centro, foi escolhida como nova passarela dos desfiles. O local abrigou os concursos de 1974 e 1975, com o público acomodado em arquibancadas mais altas e os cortejos ocorrendo da Praça Quinze em direção à Avenida Beira-Mar. Produzindo alegorias de dimensões bem maiores que a média das concorrentes, o carnavalesco do Salgueiro, Joãosinho Trinta, foi quem melhor soube explorar a nova posição dos espectadores, contribuindo para levar a escola ao bicampeonato.

Em 1976, em meio ao avanço das obras do metrô e algumas críticas de sambistas à nova avenida – como as reclamações sobre o local de concentração, que era invadido pelo público e dificultava a organização e saída das escolas -, a prefeitura decidiu levar o espetáculo de volta à Avenida Presidente Vargas. Com o objetivo de resgatar a tradição dos primeiros desfiles, o trecho escolhido foi o início da avenida, com concentração na área do Mangue - que dá nome ao canal e à antiga zona de prostituição que existia no local - e dispersão na altura da antiga Praça Onze. A decisão, no entanto, proporcionou situações inusitadas, como a concentração das escolas no alto do Viaduto dos Marinheiros. O desfile de 1977 foi mantido no mesmo local, mas para corrigir os problemas do ano anterior, houve a inversão do seu sentido, com concentração na Praça Onze e dispersão no Mangue.

Em 1978, poder público e escolas decidiram fazer uma nova tentativa de encontrar o palco ideal para os desfiles, transferindo-os para a Rua Marquês de Sapucaí, uma via da Cidade Nova, transversal à Presidente Vargas e próxima à região da antiga Praça Onze. A medida provocou uma série de desapropriações e demolições no local. Quanto ao cortejo, ficou decidido que se daria no sentido Catumbi-Presidente Vargas, para facilitar o escoamento dos sambistas em direção à Central do Brasil.

Na ocasião, a Beija-Flor de Nilópolis, que, desde 1976 - com “Sonhar com rei dá leão”, contando a história do jogo do bicho -, rompeu com uma tradição de enredos que faziam propaganda do regime militar, e contava com o gênio criativo de Joãosinho Trinta, além do apoio financeiro do bicheiro Aniz Abraão David, consolidou sua posição entre as grandes escolas, alcançando o tricampeonato. Joãosinho, por sua vez, conquistou o seu quinto título consecutivo, se consolidando como mito do carnaval. Com sua concepção teatral, ele foi um dos artistas que mais souberam adaptar a criação carnavalesca às sucessivas mudanças de palco da “ópera popular”. Os títulos da Beija-Flor romperam, também, uma longa sequência de vitórias das quatro grandes forças do carnaval: Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro.

O carnaval de 1979 teve a Sapucaí novamente como palco, mas devido a protestos dos moradores do Catumbi, incomodados com a agitada concentração, e à dificuldade das escolas em se armarem nas ruas estreitas do local, a prefeitura decidiu inverter o sentido do desfile para o carnaval de 1980. Mas, se por um lado, a nova concentração na Presidente Vargas agradou, a dispersão no Catumbi permanece como um desafio à segurança e mobilidade dos desfilantes.


Até 1983, a Sapucaí viveu a rotina do “monta e desmonta” de arquibancadas para o carnaval, há anos incorporada ao cenário do Centro da cidade. Nos desfiles desse período, a nova avenida viu a consolidação de potências emergentes, como a Mocidade Independente de Padre Miguel, campeã em 1979, e a Imperatriz Leopoldinense, vitoriosa em 1980 e 1981. Apoiadas, respectivamente, pelos bicheiros Castor de Andrade e Luizinho Drummond, as duas agremiações, ao lado da Beija-Flor (campeã novamente em 1980 e 1983), impuseram um novo paradigma na organização dos desfiles. Elas trouxeram luxo, tecnologia e carnavalescos de ponta, modificando o jogo de forças das escolas de samba.

Estava consolidada, definitivamente, a era das “superescolas de samba S.A.” e suas “superalegorias escondendo gente bamba”, expressões imortalizadas no samba em forma de crítica apresentado pelo Império Serrano em 1982, ano de seu último título. Foi o próprio Império, aliás, a escola que, entre as mais tradicionais, teve a maior dificuldade em conseguir se adaptar ao novo padrão de competitividade da era da profissionalização dos desfiles, amargando, a partir dos anos 90, sequências de colocações ruins, rebaixamentos e longas ausências do desfile principal.

O maior profissionalismo e as cifras cada vez maiores investidas na preparação das escolas, tornando o espetáculo mais visual, demandavam, por sua vez, um espaço à sua altura e maior conforto aos espectadores. Assim, ano a ano, ganhava força a ideia de se construir um palco fixo para a festa, uma antiga reivindicação dos sambistas. A diminuição de gastos públicos e dos transtornos à cidade com o fim da montagem de arquibancadas e infraestrutura para os desfiles era outro forte argumento em defesa da concretização desse sonho.


Foi nesse contexto que as escolas de samba ganharam o Sambódromo, palco que se tornou cartão-postal da cidade e um dos maiores marcos da história do carnaval carioca. Assunto merecedor de um capítulo à parte no Acervo O GLOBO.






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