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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

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18/01/2013 07h30 - Atualizado em 18/01/2013 07h30

‘Ex-doméstico’, rei momo de BH vai usar prêmio para concluir faculdade

Com 70 quilos e boa forma, Leo de Jesus mostra que não segue padrões.
Futuro arquiteto se declara apaixonado pela festa belo-horizontina.

Raquel FreitasDo G1 MG

Pelo segundo ano consecutivo, BH tem rei momo em forma (Foto: Robson Vasconcelos/Belotur)Pelo segundo ano consecutivo, BH tem rei momo em forma (Foto: Robson Vasconcelos/Belotur)
Com 1,70 metros e 70 quilos, Leo de Jesus, eleito majestade da Corte Momesca de Belo Horizonte em 2013, não tem porte de um tradicional rei momo. Mas o mineiro de Brumadinho, na Região Metropolitana, realmente, não se importa em seguir padrões. “Doméstico” por dez anos e atualmente professor de dança afro e samba, ele se prepara para conquistar mais um sonho, graças ao prêmio que ganhou no concurso promovido pela prefeitura da capital mineira. A quantia de R$ 5 mil será usada para concluir o curso de arquitetura neste semestre. “Quando você realiza um sonho, você galga outro. E se era tão difícil, agora quero um mais difícil”, afirma.
Foi assistindo aos desfiles das escolas de samba pela televisão que Leo de Jesus, ainda criança, apaixonou-se pelo carnaval. Ele conta que não tinha aparelho de TV em casa e, por isso, “fugia” para a casa de um vizinho para acompanhar a transmissão, o que lhe rendeu diversas broncas. “O mundo que eu vivia era muito distante. Era a vontade de conhecer o mundo que eu via na televisão. O mundo que eu via na TV, para mim, não era tão real. A gente tinha uma vida muito árdua”, relembra.
Somente quando se mudou para Belo Horizonte, em meados da década de 90, Leo de Jesus conheceu de perto aquele universo do carnaval que tanto o encantava. Mas, se foi a festa carioca que encheu os olhos do pequeno menino de Brumadinho, foi a folia belo-horizontina que ganhou a fidelidade da paixão do futuro arquiteto. “Todos os anos eu tenho que estar na avenida. E sempre aqui em Belo Horizonte. Eu não consigo sair daqui por nada”, declara.
Há sete anos, rei momo se tornou 'rei da avenida' como mestre-sala (Foto: Robson Vasconcelos/Belotur)Há sete anos, rei momo se tornou 'rei da avenida'
(Foto: Robson Vasconcelos/Belotur)
Na época em que caiu na avenida pela primeira vez, ele ganhava o sustento em casas de família, como empregado doméstico. “Fazia todo serviço: lavar, passar, cozinhar, levar menino para escola, trazer”, explica, sempre com bom humor. Depois, tirou carteira de habilitação e se tornou motorista e jardineiro.
Influenciado pelo irmão, que também trabalha como doméstico, a primeira escola do rei momo na cidade foi a Bacharéis do Samba. Leo de Jesus conta que guarda até hoje a roupa de passista com a qual desfilou, afinal, as fantasias são uma das paixões do estudante.  “Fiz corte e costura. Foi um curso que uma das minhas patroas, minhas chefes naquela época, pagou para eu fazer. Eu estava cheio de curiosidade. Tinha uma máquina de costura elétrica e eu inventava de fazer as coisas”. Assim, começou a confeccionar as próprias fantasias e a criar alegorias para escolas da capital.
Há sete anos, já como integrante da Acadêmicos de Venda Nova, o universitário conquistou mais uma função no carnaval, a de mestre-sala. “Eu era louco para ser mestre-sala. Eu achava que era o rei da avenida e é o rei da avenida. Não tem coisa melhor de pisar na avenida como mestre-sala”, afirma o rei momo.
Com orgulho, ele conta histórias em que ajudou a colorir e levar magia à avenida. Em uma delas, o universitário teve apenas meia hora para transformar plumas, pedraria e outros adereços em fantasia. Leo de Jesus ressalta que as escolas da capital sofrem com o atraso de verbas e de patrocínio, e, por isso, muitos detalhes ficam para a última hora.  “No ano em que a gente [Acadêmicos de Venda nova] ganhou, em 2009, eu fiz toda a roupa da nossa rainha de bateria em 30 minutos. Era uma fantasia que não tinha sido feita. As peças estavam juntas para serem montadas”, diz.
Leo de Jesus se apaixonou pelo carnaval assistindo a desfiles pela TV (Foto: Raquel Freitas/G1)Leo de Jesus está no último período de arquitetura, dá aulas de dança e faz estágio (Foto: Raquel Freitas/G1)
Rei magro
Pelo segundo ano consecutivo, Belo Horizonte elege um rei momo em boa forma. Em 2012, a majestade da folia belo-horizontina foi Rafael Eduardo que, assim como Leo de Jesus, não exibe nenhum “quilinho” a mais.
Para o ganhador de 2013, a mudança no padrão dos eleitos reflete o espírito da festa. “Eu sempre acreditei no carnaval sendo a festa mais democrática e inclusiva que a gente tem para o povo brasileiro. Então, se ela é democrática e inclusiva, por que não outras pessoas com outras formas de estética, cor, etnia, o que seja, poder participar deste concurso?”, questiona. Leo de Jesus argumenta ainda que a escolha de reis magros também é uma forma de chamar a atenção da população para os riscos do sobrepeso.
Eu quero levar tudo isso que eu vejo, que eu vi sobre a realidade das escolas. E falar que existem pessoas que fazem o samba na cidade com muita dignidade"
Leo de Jesus, rei momo
O universitário ainda não sabe quais compromissos terá que cumprir como rei momo, mas já prevê uma agenda atribulada, nada a que ele já não seja acostumado. Leo de Jesus conta que seu hobby é malhar, mas a correria do dia a dia nem sempre permite que ele vá à academia. Pela manhã, ele faz estágio em um escritório em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte; à tarde, cursa arquitetura na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas); à noite, dá aulas de dança em uma associação cultural.
Se a agenda como rei momo ainda não está definida, a missão como majestade do carnaval já está na ponta da língua. “Eu quero levar tudo isso que eu vejo, que eu vi sobre a realidade das escolas. E falar que existem pessoas que fazem o samba na cidade com muita dignidade, com muito amor, com muito carinho. Que tudo que vai para a avenida, vai com muito trabalho. Que seja na última semana que sai a verba, que seja um mês antes de acontecer o evento, tudo que é levado para avenida foi feito com muito empenho, com muito amor. E mostrar que o carnaval nunca morreu em Belo Horizonte”, diz.
Para se formar, universitário vai fazer projeto de sambódromo para BH (Foto: Raquel Freitas/G1)Para se formar, universitário vai fazer projeto de
sambódromo para BH (Foto: Raquel Freitas/G1)
Tudo é carnaval
Leo de Jesus realmente vive o carnaval, mesmo depois da quarta-feira de cinzas. Para se graduar em arquitetura, o universitário pretende apresentar uma proposta de um novo espaço para o desfile das escolas de samba na capital, que, em 2013, será realizado na Praça da Estação.“O meu projeto de formatura é justamente o projeto do sambódromo da cidade de Belo Horizonte. Tudo veio a calhar. E eu já defendo esse projeto na faculdade desde os primeiros semestres que eu venho desenvolvendo. Por que, como deveria sendo esse espaço, o que que atende, o que não vai atender?”
Para ele, a experiência como rei momo, além de viabilizar o custeio dos estudos, vai ser fundamental no desenvolvimento de seu projeto. “Ser rei momo só vai me ajudar a fazer um grande trabalho de campo, conhecer a realidade mais ainda do que eu já sei sobre as escolas, as agremiações da cidade. Entender o que e como o poder público desenvolve essa linguagem, trabalha essa temática na cidade”, explica.
“O carnaval sempre foi marcante na minha vida porque eu acho que foi até um sustentáculo para me manter vivo. A arte, ela escraviza e nos mantém vivos, de uma certa forma”, resume.

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